A Mãe da Mãe




A MÃE DA MÃE é a continuação dos estudos oriundos do espetáculo “Yriádobá da ira à flor”, com dramaturgia e direção de Adriana Rolin e é um manifesto para sua avó Arlete com uma fratura que sangra e lateja, revelando o impacto do racismo estrutural e do patriarcado no inconsciente coletivo, denunciando os sofrimentos das mulheridades silenciadas, invadidas, feridas, das negras, enlouquecidas, que cometeram suicídio num ato de ira, fuga e coragem.
YRIÁDOBÁ DA IRA À FLOR é um solo de Adriana Rolin, nascido em sua pesquisa de mestrado em artes, orientada por Luciana Lyra sob o conceito/prático chamado Mitodologia em Arte, que tem o mito como suporte, roçando na história pessoal da atuante, expandindo os procedimentos laboratoriais para a cena. Adriana utilizou do mito de Obá, que mutilou a própria orelha como receita de amor, e no processo dramatúrgico em amplificação, a orelha como símbolo, correlaciona-se com a vagina, e assim escreveu sobre as mutilações da própria vagina e depois abriu um portal da matrilinearidade, escrevendo sobre as feridas da vagina de sua mãe e depois de sua avó, mãe de sua mãe, mulher negra retinta brasileira, casada com homem branco europeu, que sofreu violências múltiplas, e cometeu suicídio a partir desses impactos. Como caminho pedagógico e curativo, a dramaturgia e a direção também são de Adriana Rolin contando com a supervisão cênica de Stephane Brodt do Amok Teatro e a música de Lilian Amancai com o seu N’goni, instrumento ancestral africano. Yriádobá está em cena desde 2019 e já apresentaram: Porto-Portugal, Redenção-CE, Belém-PA, Recife-PE, Natal-RN, Brasília-DF, Paraty-RJ, UERJ-RJ, UFF-RJ, Museu de Imagens do Inconsciente-RJ e Reserva Florestal do Grajaú-RJ.
Ao longo do processo de criação, Adriana Rolin, por ser atriz-pesquisadora do APA Ateliê de Pesquisa do Ator por quase 5 anos, utilizou de técnicas deste núcleo em artes cênicas, de metodologia própria e inédita sobre o corpo sensível, sob a coordenação do Centro Cultural Sesc Paraty e realizado com a direção pedagógica dos atores pesquisadores Stephane Brodt (Amok Teatro) e Carlos Simioni (Lume Teatro).
No percurso de A MÃE DA MÃE, Adriana utiliza de escritos metafóricos de Antonin Artaud, da Mitologia Yorubá em sabenças do Ilê Asè Ogum Alakorô, onde é abyián de Oyá desde 2020, e de estudos do imaginário em Carl Gustav Jung, no que vem chamando de Influxos Artaudianos desde seu doutoramento, um caminho pedagógico para as artes da cena. Adriana assina a idealização do projeto, a dramaturgia e a direção, além de também atuar. E a música mágica na Afrika Ancestral com Lilian Amancai expandindo a outros instrumentos. Lilian é a grande parceira de Adriana. E agora juntas, pretendem lançar essa performance inédita, com 30 minutos de duração, que vem sendo construída desde julho de 2025 com vínculo ao pós-doutoramento de Adriana Rolin e supervisão de Ana Cristina Colla (Lume Teatro), no 21 dias de ativismo contra o racismo com narrativas de cartas às avós, sobressaltando a negrura e a loucura, a partir do impacto da hipersexualização, do racismo e do machismo, trazendo a maternidade, a poética da natureza e a espiritualidade como caminhos compensatórios e curativos.
O contexto sócio-histórico-cultural de nosso país é baseado no patriarcado misógino, subjugando e deslegitimando a mulher em sua identidade. A MÃE DA MÃE é a matrilinearidade entre avós, mães e filhas, é a rainha de 346 mulheres, ela é a Grande Mãe das vaginas humilhadas, dilaceradas, estupradas. Ela desloca a dor em seu peito, com a força da fragilidade, refaz a narrativa e recria o mito. Traz consigo o sopro de milênios e dá corpo às aparições das negras enlouquecidas, que cometeram suicídio num ato de ira, fuga e coragem. Essa performance conta ainda como uma homenagem a Stella do Patrocínio, grande eixo de pesquisa cênica e construção das personagens. Stella é referência no assunto da loucura, mulher negra e poeta, foi internada involuntariamente em casas psiquiátricas e passou por procedimentos do eletrochoque, considerada louca pela loucura do racismo estrutural.
Ficha Técnica
Direção e dramaturgia: Adriana Rolin.
Música: Lilian Amancai.
Atuação: Adriana Rolin e Lilian Amancai.
Semente e abrigo: Amok Teatro.
Articulações culturais: Cátia Costa, Graciana Valladares,
Natasha Pasquini e Sol Souza.
Agradecimentos: Ana Cristina Colla e Stephane Brodt.